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4/6/15

Calçada portuguesa: tradição ou maldição?

Acabou o tabu sobre o mais típico pavimento português. A calçada portuguesa pode estar, em nome da acessibilidade, no princípio do fim.


Calçada portuguesa: tradição ou maldição?



Entre a casa de Nemésia Cunha e Manuel Rodrigues e a paragem do autocarro, a distância é curta. O caminho, que fazem todos os dias, é mais fácil para ele, que tem 67 anos, do que para ela, que conta 81. No chão da Rua de Campolide, em Lisboa, onde vivem, carreiras irregulares de pedras com espaçamentos de centímetros vão provocando o balanço e, às vezes, o tombo. Para contornarem os obstáculos, apoiam-se nas paredes dos prédios e passam para a berma da estrada. Os cinco minutos necessários para o trajeto duplicam. "Ainda há pouco tempo caí aqui mesmo e magoei-me", conta Manuel, apontando para um buraco e para as pedras soltas amontoadas no passeio. Quando, no fim do ano, a calçada portuguesa tiver sido substituída por outro tipo de pavimento, Nemésia e Manuel garantem que vão sentir-se mais seguros.
Longe vão os dias em que a calçada era sinónimo de identidade e orgulho. Hoje, sobrevive nas zonas históricas. Património versus segurança. Ou manutenção versus conforto. Depende de que lado da barricada se está. De um lado, os que querem manter uma herança única. Do outro, os que querem tornar os passeios portugueses mais seguros. "Aqui, a população é bastante envelhecida, e sabemos, pelo apoio social que damos, que há muitos idosos fechados em casa porque os passeios são escorregadios e não conseguem sair à rua de muletas ou de bengala", diz André Couto, presidente da Junta de Freguesia de Campolide. A consulta popular realizada há três semanas ditou o fim da calçada no bairro e o fim de uma era. De um período imponente da História nacional que começou na capital e se espalhou pelo mundo. "É curioso que a calçada portuguesa esteja a acabar em Lisboa, onde começou e conheceu o seu auge", diz Ernesto Matos, autor de oito livros sobre o tema.
Nascida em Lisboa, a meio do século XIX, a calçada portuguesa rapidamente se espalhou, primeiro pelo país - Porto, Guimarães, Faro, Ponta Delgada... - e depois pelo mundo, sendo o Calçadão do Rio de Janeiro o seu expoente máximo internacional. "A primeira grande obra foi na Praça do Rossio, inspirada no IV Canto dos 'Lusíadas'", explica Ernesto Matos. Veio trazer uma luminosidade e desenhos em grande escala a que as cidades não estavam habituadas. Mas já há muitos anos que faltam calceteiros profissionais que façam a calçada como manda a tradição: pedras bem cortadas, com o máximo de dois milímetros de separação, coladas com areia lavada pelo rio. Desde 1986, a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa (CML) formou apenas 140. Não chegam para fazer a manutenção, que, apesar de a autarquia não revelar valores, se sabe que é elevada. Só a cidade de Ponta Delgada gasta, anualmente, cerca de 300 mil euros. "Corremos o risco de ter mais calçada portuguesa no estrangeiro do que cá", diz Ernesto Matos, que já a encontrou em Malaca, na Malásia, em Pequim, na China, na Califórnia, nos EUA, ou em Praga, na República Checa.
Por um piso democrático sem estatuto de património, apesar de o ano passado ter sido levada ao Parlamento uma petição nesse sentido, é preciso distinguir entre calçada portuguesa (as pedras brancas do passeio) e calçada portuguesa artística (construída em grandes praças e cujos desenhos são feitos artesanalmente). À partida, esta última será protegida. "Qual é o feito em larga escala que mantém a sua qualidade? O alargamento da calçada a toda a cidade e ao resto do país fez com que descesse a qualidade de execução", diz Pedro Homem de Gouveia, coordenador do Plano de Mobilidade e Acessibilidade da CML. É ele que vem colocando o dedo na ferida: a calçada exclui idosos e deficientes. "Estamos a fazer um inquérito com cegos. Eles contam-nos que preferem andar na faixa de rodagem do que no passeio." As autarquias não têm dados estatísticos que relacionem a calçada com quedas e acidentes, mas sabe-se que os peões que caminham na estrada representam a terceira causa de atropelamentos em Lisboa. "Não é justo que as pessoas com deficiência fiquem com mais uma limitação", frisa o responsável da CML.
Antes de Campolide ter trazido o caso para a ribalta mediática, já Porto e Olhão se tinham atrevido a 'mexer' na calçada. Uma área na cidade algarvia ganhou, no ano passado, um piso mais regular. Na Invicta, em 2005, a Avenida dos Aliados foi remodelada com um pavimento em lajes de granito cinzento. "Foi uma pena. Estava ali retratada a história do vinho do Porto. Só aconteceu porque se tratava de um futuro Pritzker", acusa Luís Marques da Silva, arquiteto e defensor da calçada, referindo-se a Eduardo Souto de Moura, um dos autores da obra de requalificação por causa do Metro do Porto. Luís Marques da Silva, habituado a remodelar espaços públicos preservando a traça original, considera a questão da segurança uma falácia. Para ele, desde que tenha sido bem cimentada e mantida, a calçada portuguesa é "o chão mais confortável do mundo". Seja para andar de saltos altos, com carrinho de bebé ou em cadeira de rodas. Os cinco milhões de metros quadrados de piso estragado em Lisboa, remendados com cimento, vão obrigar a grandes adaptações. "Durante muito tempo não se falou de alternativas. Abriu-se e fechou-se o pavimento sempre que era preciso, e isso também prejudicou a calçada", afirma Pedro Homem de Gouveia. O tabu acabou.

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