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Cristalizações

Cristalizações "Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros, Vibra uma imensa claridade crua. De cócoras, em linha, os calceteiros, Com lentidão, terrosos e grosseiros, Calçam de lado a lado a longa rua. Como as elevações secaram do relento, E o descoberto sol abafa e cria! A frialdade exige o movimento; E as poças de água, como em chão vidrento, Reflectem a molhada casaria. Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, Disseminadas, gritam as peixeiras; Luzem, aquecem na manhã bonita, Uns barracões de gente pobrezita E uns quintalórios velhos com parreiras. Não se ouvem aves; nem o choro duma nora! Tomam por outra parte os viandantes; E o ferro e a pedra — que união sonora! —  Retinem alto pelo espaço fora, Com choques rijos, ásperos, cantantes. Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços, Cuja coluna nunca se endireita, Partem penedos; cruzam-se estilhaços. Pesam enormemente os grossos maços, ...

In O livro de Cesário Verde

Cristalizações "Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros, Vibra uma imensa claridade crua. De cócoras, em linha, os calceteiros, Com lentidão, terrosos e grosseiros, Calçam de lado a lado a longa rua." Cesário Verde © Wiki Educação           Hoje é dia de um post diferente, mas temos sempre a calçada e os calceteiros como ponto de partida.       Vamos fazer uma curta análise ao excerto do poema “Cristalizações” de Cesário Verde, excerto este que nos fala dos calceteiros e na sua arte.        Esperamos que gostem desta curta abordagem ao tema.     No período em que viveu Cesário Verde (1855-1886), Portugal estava em profunda transformação.          Ele pertenceu à época literária do romantismo (2ª metade do século XIX), do período realista.        Neste poema, Cesário Verde vai deambulando pela rua, onde vai encontrando trabalhadore...