"...Tudo isto para chegar aqui. Lembrei-me das delícias do inútil ao conversar ontem à tarde com um amigo norte-americano que vive em Hong Kong e está a passar umas semanas em Portugal. Hoje, ao percorrermos um pedaço de Lisboa, ele apontou para o chão e disse-me que aquelas pedras eram uma das razões por que gostava de vir a viver em Lisboa. Hong Kong é uma cidade demasiado eficiente... Não se põe nada nas ruas que não sirva para alguma coisa. Para ele, é comovente ver uma cidade onde o chão que pisamos é feito laboriosamente, pedra a pedra, só para ficar mais bonito. A calçada, a música, a arte, a ciência, os livros… — tanta coisa que não parece mover os dias. E, no entanto, andamos pelos dias com sede de tudo isto. Uma crónica — pensarão alguns — serve para convencer ou, pelo menos, para falar de alguma coisa de útil. Pois esta não é assim: serve apenas para empurrar o leitor para um passeio, para um livro, para uma boa conversa pelas calçadas de Lisb...