Avançar para o conteúdo principal

História da Calçada, Parte II

Veja aqui a Parte I - História da Calçada Portuguesa

Durante os descobrimentos portugueses, e segundo os relatos históricos, os navios iam vazios para os seus destinos o que representava um enorme desafio à sua boa navegabilidade, para tal o engenho português revelou-se ao carregarem os navios, à saída de Portugal, com pedras de calcário e basalto que lhes serviam de lastro, permitindo assim uma viagem mais estável e à chegada aos países jesuítas e militares aplicavam estas pedras pelo território, podendo assim os navios regressar a Portugal repletos de mercadorias exóticas desses mesmos territórios. Estávamos nos séculos XVIII e XIX e a dupla mensagem inerente a esta colonização também pela pedra portuguesa foi um fator distintivo e de reconhecimento para Portugal nas suas colónias.

Caravela Portuguesa - Descobrimentos
© ROC2C
Macau foi dos territórios fora de Portugal que mais presença de calçada portuguesa teve e tem atualmente, esta técnica foi levada pelos portugueses no fim do séc. XIX e início do séc. XX. Mais tarde na década de 80 do século passado, com o projeto de plano diretor para a malha urbana da península de Macau, renasceu assim o império da calçada no Oriente, existem quilómetros e quilómetros de calçada portuguesa.

A calçada serviu também como ponto de encontro pacífico entre as culturas portuguesa e chinesa e mesmo após a transferência de soberania para a República Popular da China continuou-se a aplicação desta arte, foram formados pelos nossos mestres calceteiros aprendizes chineses que hoje aplicam esta técnica. A calçada permitiu também oferecer aos habitantes de Macau novos espaços de usufruo social e de vivencia do espaço urbano. 
Calçada no Largo do Senado, Macau - Anos 80
© Revista Macau

Em 1906, no Brasil, foram feitas as duas primeiras grandes obras com Calçada Portuguesa neste país com a reprodução do padrão Mar Largo junto ao Teatro Amazonas em Manaus e o calçadão de Copacabana, no início do século passado Paulo de Frontin, o então perfeito da cidade, decidiu fazer uma homenagem aos colonizadores portugueses, através da aplicação do padrão usado em Lisboa, no largo do Rossio, perpendicularmente ao sentido das ondas do mar.

Mais tarde em 1960 a Avenida Atlântida foi ampliada e reformada pelo projeto do arquiteto paisagista e artista plástico Burl Marx, triplicando o tamanho do calçadão e alterando a disposição do padrão passando a ficar paralelo com as ondas do mar. Burl Marx explorou criativamente a técnica da calçada noutros suportes, tendo aplicado alguns dos seus conhecimentos na produção de importantes murais urbanos que complementavam os seus projetos de paisagismo. Também noutras zonas do Brasil, em Ipanema e Leblon, foram criadas calçadas com ondas, formas geométricas e motivos marinhos. 
Teatro Amazonas em Manaus - 1972
© Arquivo Nacional Brasil 

Praia Copacabana - Anos 20
© Mosaicos do Brasil
As colónias africanas não foram exceção e esta arte foi também levada às avenidas de Moçambique; Cabo Verde; Guiné e Angola em trabalhos que visavam a modernização destes países à estética e cultura portuguesa, alguns destes trabalhos em Calçada Portuguesa ainda hoje existem em maior ou menor grau de conservação.

Na história recente, muitos foram os países que vieram também a adotar a Calçada Portuguesa e com ela atapetaram os seus passeios, praças e espaços privados com esta arte, entre eles: EUA; Espanha; Luxemburgo; Noruega; Qatar; Bélgica; Canadá; Austrália; China; Suíça; Índia e muito nos orgulhamos, de através do trabalho da ROC2C, termos contribuído para aumentar esta lista de países, difundindo o conhecimento da Calçada Portuguesa no mundo. Em cada um deles a calçada deixou-se influenciar pela génese cultural e particularidades identitárias, mesclando-se através das simbologias próprias de cada país, usadas nos desenhos de ornamentação e criando assim proximidade com os locais. 

Lourenço Marques Maputo - 1961
© American Geographical Society Library
No ano de 1986, em Portugal é criada a escola de calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa para dar continuidade e estruturação a esta profissão, sendo ainda hoje um precioso arquivo de moldes históricos usados nas mais emblemáticas calçadas de Lisboa.

A Calçada Portuguesa é atualmente candidata à Património Cultural Imaterial da Humanidade, cuja candidatura foi apresentada pela cidade de Lisboa em 2016, estando ainda em fase de análise pela UNESCO.

Ao longo dos séculos, o saber imemorial desta arte aglutinou-se para nos trazer aquilo que hoje conhecemos como Calçada Portuguesa que é na realidade histórica: uma calçada de memória portuguesa.

Uma história que se escreve de paixões, de pessoas que acreditaram na capacidade técnica e artística desta arte e a foram continuamente disseminando pelo mundo, mas a história é contínua e em permanente registo, neste sentido pretendemos na ROC2C investigar, aprofundar e mostrar a história da calçada portuguesa até à atualidade, continuamente.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Avenida da Liberdade: exemplo da Calçada Portuguesa em Lisboa

A Avenida da Liberdade mantém-se até hoje, como sendo um dos locais de Lisboa com mais história e beleza, que representa na sua plenitude as qualidades da calçada portuguesa e o papel da mesma, na cultura e caracterização das ruas da capital. Tapetes de Pedra Ao ler este artigo conhece um pouco mais sobre a história da Avenida da Liberdade e quando foi projetada, o tipo de assentamento utilizado ou as principais características deste típico pavimento, cujos pormenores da inauguração ainda encontra atualmente. Arte em Calçada Breve História da Avenida da Liberdade Com ligação entre a Praça dos Restauradores e a Praça Marquês de Pombal, a Avenida da Liberdade, que começou a ser construída há mais de 140 anos , foi o primeiro jardim público de Lisboa. Esta famosa via urbana tinha como objetivo expandir a cidade para norte, algo que aconteceu, destruindo assim o, até então, Passeio Público (criado em 1764, pelo arquiteto Reinaldo Manuel). O seu projeto foi aprovado ...

Largo dos Lóios, Porto / Lóios Plaza, Oporto

   Era por aqui que outrora, século XIX, foi construído um Mosteiro, algures entre o Largo dos Lóios, a Praça da Liberdade, a Praça Almeida Garrett e a Rua de Trindade Coelho, em pleno centro histórico da cidade do Porto.   Com o nome de Mosteiro de Santo Elói, daí o Largo ter inicialmente este nome. Deste mosteiro, hoje edifício das Cardosas, só a imponente fachada chegou aos nossos dias.     It was here that, in the nineteenth century, a monastery was built, somewhere between Lóios Plaza, Square of Liberdade, Almeida Garrett Square and Street of Trindade Coelho, in the historic center of Oporto.   With the name of Monastery of Saint Elói, from there this Plaza initially had this name. From this monastery, today the Cardosas building, only the imposing façade has reached our days. Rua dos Clérigos, Porto © Roc2c © Roc2c "LARGO DOS LÓIOS" "ANTIGO LARGO DE SANTO ELÓI"    Contudo, o Largo dos Lói...

Calçada do Sacramento in Lisbon

Calçada do Sacramento, Lisbon, Portugal Photos: Celso Gonçalves Roc2c